Após leilão da ANP, petroleiras fazem as contas

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Depois de cinco anos de espera, a participação das petroleiras brasileiras de capital aberto na 11ª Rodada de Licitações da Agência Nacional de Petróleo (ANP) foi recebida com uma dose de decepção pelo mercado. Petrobras e Queiroz Galvão Exploração e Produção (QGEP) teriam adquirido menos blocos do que o esperado na rodada, realizada na semana passada, no Rio. E a OGX teria sido mais arrojada do que sua situação financeira permitiria no curto prazo, na avaliação de analistas.Somadas, as três empresas foram vencedoras de 55 blocos dos 142 arrematados no leilão, ou quase 40% do total. E mesmo assim vão desembolsar R$ 1 bilhão dos R$ 2,8 bilhões em bônus de assinatura, sem incluir valores a serem pagos por parceiros. O investimento mínimo das companhias será de R$ 2,2 bilhões nas áreas nos próximos anos. Outra empresa do setor listada na Bolsa, a HRT Petróleo se inscreveu para participar da 11ª Rodada, mas não fez ofertas.
O resultado do leilão trouxe assim poucos benefícios para os investidores que têm as ações das empresas. Até porque as companhias precisam agora perfurar poços nas áreas que foram arrematadas na rodada para confirmar ou não a presença de hidrocarbonetos (petróleo e gás), segundo lembrou o Itaú BBA, em relatório. Nas recomendações de analistas, os papéis da Petrobras e da QGEP ainda figuram como opção de investimento para quem busca retorno no longo prazo. Já as ações de OGX e HRT estão de fora das apostas dos especialistas.
Setor teve 2º pior desempenho global
A frustração ocorre num momento em que as ações das petroleiras no país acumulam um desempenho médio aquém do verificado no mercado internacional. Levantamento mostra que, na média ponderada pelo valor de mercado, o setor teve uma valorização de 3,75% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) nos últimos 12 meses. Lá fora, o desempenho foi melhor entre as petroleiras de países como EUA (30,67%), França (17,02%), Reino Unido (13,37%) e China (14,80%). Somente na Rússia o resultado foi abaixo do brasileiro, com alta de 1,68%, influenciado pela queda das ações da Gazprom.
 
Segundo Frederico Mesnik, sócio-gestor da Humaitá Investimentos, o desempenho é explicado em parte pelo menor otimismo dos investidores estrangeiros com o país. Ele acrescenta, porém, que as petroleira têm características diferentes e precisam ser avaliadas caso a caso.
— A Petrobras foi pressionada pela falta de reajuste de combustíveis e a interferência do governo, quadro que melhorou mais recentemente. A OGX sofreu com a revisão de sua expectativa de produção para baixo e limitações de caixa para investir e pagar dívidas. Já a HRT tem apresentado dificuldades em sua empreitada na Namíbia e na Bacia de Solimões — diz Mesnik.
Cresce preocupação com caixa da OGX
No centro das atenções nos últimos meses, a atuação da OGX na 11ª Rodada foi marcada pela agressividade na aquisição de blocos. A petroleira fez 32 ofertas na rodada e arrematou 13 blocos, ou seja, teve uma taxa de sucesso média de 42%. E a empresa do grupo EBX, do bilionário Eike Batista, vai desembolsar R$ 376 milhões somente em bônus de assinatura em agosto.
— A OGX conseguiu diversificar seu portfólio de projetos, com blocos em Barreirinhas, Ceará, Foz do Amazonas, Parnaíba e Portiguar. E atraiu parceiros grandes, como Exxon e Total. Isso foi positivo. Por outro lado, pagou ágios muito altos no leilão, como um de 13.505% no bloco 389, em Barreirinhas — lembra Luis Gustavo Ferreira, estrategista-chefe da Futura Corretora.
Em relatório assinado pelo analista Emerson Leite, o banco Credit Suisse acrescenta que os recursos da venda de 40% de participação no campo Tubarão Martelo para a estatal Petrobras, da Malásia, serão recebidos pela empresa no fim do ano. O pagamento de bônus da rodada, porém, será em agosto. Isso “aperta o balanço da empresa” e pode forçar o controlador Eike Batista a injetar US$ 1 bilhão na OGX.
É um quadro diferente do que começa a ser traçado por analistas para a Petrobras, após anos de mau desempenho na Bolsa. Segundo Henrique Kleine, analista-chefe da corretora Magliano, os reajustes de preço dos combustíveis e um balanço melhor do que o esperado mudaram a percepção do mercado sobre a estatal:
— Para o porte da Petrobras, os blocos adquiridos na rodada representam pouco. Mas o mercado tem reconhecido, aos poucos, uma melhora na gestão e governança da Petrobras com a Graça Foster na presidência. Prova disso é a captação de US$ 11 bilhões da empresa no exterior.
Graça disse, na semana passada, que a atuação da estatal foi “seletiva” na 11ª Rodada por que a companhia vai focar esforços no leilão marcado para outubro da agência.
Já a QGEP adquiriu nove blocos na rodada, dos quais vai operar cinco. Para o Itaú BBA, a empresa “poderia ter mostrado mais apetite” na rodada. “O forte balanço da companhia permitia que a empresa adquirisse mais áreas do que realmente fez”, avaliaram os analistas Paula Kovarsky e Diego Mendes, citando que isso mostra, por outro lado, compromisso dos administradores com a situação financeira da companhia.
Das 15 recomendações de analistas do mercado para a QGEP , 11 são de compra. Para o Itaú BBA, o resultado da rodada foi neutro para a QGEP, assim como para Petrobras e HRT. No caso da OGX, o leilão teve resultado negativo.
Sem participar da rodada, a HRT segue pressionada pelo mercado para entregar resultados na Bacia do Solimões e na Namíbia. Desde que estreou na Bolsa, as ações da HRT derretem 85%. O golpe mais recente foi o pedido de demissão do presidente do Conselho e fundador da HRT, Márcio Mello. Os papéis não têm recomendação de compra no mercado.O Globo